Universidades de Curitiba relatam como se dá o uso de cobaias em experiências e quais as alternativas para substituí-las

Marcelo Andrade / Gazeta do Povo

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Ana Laura Angeli, coordenadora do curso de Medicina Veterinária na Universidade Tuiuti, conta que o uso de animais em aulas também tem impacto social. Em anestesiologia, por exemplo, os cães e gatos de rua usados são castrados.

O resgate de beagles em um centro de pesquisas no interior de São Paulo, no mês passado, ganhou destaque e gerou uma onda de debates fervorosos em todo o país. Embora o caso tenha alimentado as discussões, a reflexão ética quanto ao uso de animais como cobaias em experimentos científicos não é tão nova para a academia. Em Curitiba, todas as universidades que fazem testes em bichos afirmam já trabalharem com métodos alternativos e estimulam os pesquisadores a avançarem mais na descoberta de outros meios.

O caso que ganhou recentemente as manchetes dos jornais levou o Instituto Royal – que teve laboratórios destruídos por ativistas e cachorros usados em experiências soltos – a encerrar as atividades após ter o alvará de funcionamento suspenso e perder anos de pesquisa. Embora a gravidade da invasão divida opiniões, a preocupação com o sofrimento dos animais é legitimada pela maioria dos pesquisadores.

“Antigamente, o mesmo animal era usado por vários alunos, gerando sofrimento para o animal e um modelo de ensino dessensibilizante. As práticas realizadas suprimiam a compaixão dos alunos. Os mais sensíveis chegavam até a desistir do curso. Atualmente, isso não é mais aceitável”, diz a professora Carla Forte Molento, do Departamento de Zootecnia da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Refererencial

Segundo Carla, o uso de animais nas pesquisas da UFPR tem como guia um referencial teórico bastante difundido no meio científico. Conhecido como 3 R’s, o modelo refere-se à substituição (replacement, em inglês), refinamento e redução. Ou seja, buscam-se alternativas para que os animais não sejam mais necessários. Quando isso não é possível, procura-se detalhar qual é a necessidade a ser suprida e, por fim, reduz-se o uso ao mínimo necessário.

Os 3 R’s também são adotados pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), diz a professora Marta Fischer, coordenadora do Comitê de Ética no Uso de Animais. A aplicação desses princípios na busca por alternativas, no entanto, é descentralizada, cabendo a cada pesquisador encontrar meios adequados para substituir ou reduzir o uso de animais como cobaias. “Cada área é muito peculiar. É o próprio pesquisador que se mobiliza nesse sentido”, explica.

Apesar dessa autonomia – também presente na UFPR –, Marta garante que a cultura da ética animal está bastante difundida e que, no passado, as resistências foram bem maiores.

Em ação

Confira como as cinco universidades de Curitiba estão envolvidas para encontrar alternativas voltadas ao bem-estar animal:

UFPR

Além das frequentes dissertações e teses sobre o tema, a professora Carla Forte Molento, do Departamento de Zootecnia, informa que são comuns as iniciativas de professores que inovam, substituindo o uso de animais em suas aulas práticas. Ela cita um novo método criado pelo professor Marcelo Beltrão, que modificou o modo de demonstrar para os alunos como se identifica anemia severa em ovelhas.

No método antigo, retirava-se uma grande quantidade de sangue de um animal saudável até que ele atingisse o nível anêmico a ser estudado. Atualmente, os alunos aprendem a diagnosticar os graus de anemia comumente existentes em um rebanho. Se o grau mais severo não estiver presente, vídeos e fotos são usados para identificação. Segundo Carla, essa abordagem já foi exportada para outras universidades do país.

PUCPR

De acordo com a professora Marta Fischer, professores de Toxicologia e Biologia usavam ratos com frequência em seus experimentos, mas, há pelo menos cinco anos, tem se mostrado eficiente a substituição por ovos de galinha, nos quais o embrião tem sistema nervoso menos desenvolvido. Outra mudança ocorreu nas aulas de Fisiologia Humana. Animais deixaram de ser usados pelos alunos, que passaram a identificar e medir parâmetros fisiológicos no próprio corpo.

Daniel Castellano / Gazeta do Povonaim_akel_dc_650vu

O professor Naim Akel Filho, coordenador do curso de Psicologia na PUCPR, mostra o software que deve substituir o uso de ratos em experiências.

A próxima substituição a ocorrer na instituição deve se dar no curso de Psicologia, no qual roedores ainda são necessários, mas softwares avançados foram recentemente adquiridos e estão em processo de teste pelos professores. Se os resultados forem positivos, a adoção da nova ferramenta deve ocorrer no primeiro semestre de 2014.

Tuiuti

Na Universidade Tuiuti do Paraná (UTP), há esforços para que o uso de animais, quando necessário, seja também aproveitado para algum bem social, como é caso das aulas de Técnica Cirúrgica ou Anestesiologia, nas quais os estudantes, com acompanhamento dos professores, fazem castrações de cães e gatos de rua.

Para o ensino de Anatomia Animal, em vez do sacrifício de animais vivos, são usados os cadáveres de cães e gatos que morrem por causas naturais na clínica da universidade ou em estabelecimentos parceiros. Na instrução sobre exames neurológicos, eletrocardiogramas e coletas de sangue são solicitados os animais dos próprios estudantes.

UTFPR

A professora Patricia Franchi de Freitas informou que, no momento, não há projetos de pesquisa sendo desenvolvidos nesta área. No entanto, há conversas com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento para o desenvolvimento de projetos voltados ao bem-estar animal.

Positivo

A professora Thaís Andrade Costa, médica veterinária e coordenadora da Comissão de Ética em Pesquisa no Uso de Animais da Universidade Positivo, informa que a instituição não trabalha no desenvolvimento de métodos substitutivos, mas aplica as tecnologias existentes. Segundo ela, praticamente não há uso de animais durante as aulas e, em algumas pesquisas, nas quais tradicionalmente são usados animais, há substituição por técnicas in vitro de cultivo celular.

Equilíbrio

Uso de bichos é indispensável em algumas pesquisas

Apesar dos esforços e da conscientização de cientistas, pesquisadores são unânimes em afirmar que em algumas áreas o uso de animais permanece insubstituível. Conforme a professora Marta Fischer, da PUCPR, já há muitas alternativas para pesquisas que envolvem a produção de cosméticos, como simulações em peles artificiais. No entanto, em testes com medicamentos a resposta de simuladores não é confiável o suficiente.

“Movimentos contrários ao uso de animais dizem que o corpo dos animais é muito diferente do nosso e que, por isso, as pesquisas não valeriam a pena. No entanto, mesmo sendo diferentes de nós, a resposta de seus corpos ainda é mais parecida com a do nosso corpo do que qualquer simulador”, diz.

Evolução

A professora Patricia Franchi de Freitas, presidente da Comissão de Ética no Uso de Animais da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), lembra que a cura ou o tratamento para muitas doenças só foi obtido graças às experimentações em animais, como patologias neurodegererativas, hipertensão e diabete. “As relações entre os seres humanos e os animais têm sofrido grandes mudanças nos últimos tempos e isso significa um avanço importante. No entanto, não há como simplesmente parar a evolução da ciência”, diz.

Para ela, é preciso repensar os comportamentos humanos em relação ao trato e respeito ao animal, preocupando-se de fato com seu bem-estar, mas seria uma contradição proibir o uso em experimentações ou fins didáticos enquanto são considerados aceitáveis o uso doméstico ou para alimentação. (JDL)

Dificuldade

Uma das maiores dificuldades do Comitê de Ética no Uso de Animais da PUCPR não é convencer cientistas quanto à importância de evitar o sofrimento dos animais, mas sim o diálogo com ativistas. De acordo com a legislação, todo comitê acadêmico que atua nessa área deve contar com um membro da sociedade que represente uma entidade protetora dos animais, mas, apesar dos convites, essa é uma vaga difícil de ser ocupada. “Eles se recusam. Dizem não ter tempo ou não ter condições para avaliar projetos. Esse é um ponto muito bom da lei que, infelizmente, não conseguimos aplicar”, diz a coordenadora Marta Fischer.

FRASE

“As relações entre os seres humanos e os animais têm sofrido grandes mudanças nos últimos tempos e isso significa um avanço importante. No entanto, não há como simplesmente parar a evolução da ciência.”

Patricia Franchi de Freitas, presidente da Comissão de Ética no Uso de Animais da UTFPR

FONTE: http://www.gazetadopovo.com.br/vida-universidade/pesquisaetecnologia/conteudo.phtml?id=1425352